sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

UM PAPA FRACO TÃO FORTE!



Pe. Wagner Lopes Ruivo

Vivemos num mundo que cultua heróis hollywoodianos dotados de poderes extraordinários e de imortalidade. Num mundo onde os holofotes estão sempre sobre os vencedores! Num mundo onde os fortes prevalecem, e isso nem sempre de forma ética. Num mundo onde demonstrar fraqueza é motivo de vergonha... Num mundo onde os poderosos se devoram por sede de poder, como já dizia o velho Pe. Antonio Vieira: “Peixes sois de vos comer uns aos outros onde os grandes comem os pequenos”.

Até Fernando Pessoa, em um de seus poemas: Poema em Linha Reta, utilizando-se do heterônimo de Álvaro de Campos bem retratava, ainda que de forma irônica, o homem de nossos tempos que tanta dificuldade tem de chorar e de admitir fraqueza:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (...)
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida(...)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”

No entanto, neste mundo de “semideuses” como dizia Pessoa, os cristãos, de forma audaz e inédita acredita num Deus que morre! Num Deus que morre de uma morte vergonhosa, num Deus que morre crucificado. Sabemos que era comum nos primeiros anos do cristianismo a representação do Deus dos cristãos como um asno crucificado nos banheiros romanos.

Os cristãos acreditam que só vai experimentar a luz, quem antes de forma honrada passar pela cruz. Heróis hollywoodianos não morrem e tampouco podem demonstrar fraqueza, enquanto os cristãos repetem o refrão bíblico “é na tua fraqueza que a minha força se manifesta” (IICor12,7)

Neste mundo dito “moderno” a senilidade é motivo de vergonha, de chacota. Só os sarados e os que estão “com tudo no lugar” podem posar para os holofotes! A ausência de rugas no rosto não consegue esconder as rugas da alma deste homem moderno!

É neste contexto, de um Hugo Chávez, por exemplo, que com uma grave enfermidade não consegue passar o bastão para a frente, de presidentes que não conseguem largar a presidência, mesmo cientes de que já passaram, que Bento XVI nos ensina com sua renúncia que o poder só faz sentido na perspectiva do serviço!

É preciso ser muito homem e muito santo para chegar diante do mundo e admitir fraqueza e afirmar que alguém que possua mais vigor físico esteja em melhor condição de guiar a barca de Pedro. É preciso ser muito forte para admitir que se é fraco, ainda mais publicamente!

Bento XVI está fazendo como que a última de suas belíssimas pregações como Pontífice, mas desta vez, o Papa está pregando em silêncio. Ele está querendo dizer a todos nós: Se algum dia você subir ao mais alto grau, sirva! Presidentes, Reis, Padres, Bispos, não fiquem preocupados com que cargo vão lhes dar, mas somente lembrem-se que o poder é passageiro, e que como já nos disse o Mestre, “a quem muito foi dado muito será cobrado” (Lc12,48).

A espada de Dâmocles tem de ser utilizada com sabedoria. É preciso reconhecer que o poder tem de ser partilhado e que um dia, outro estará em seu lugar! E mais, nunca se ache insubstituível, porque ninguém o é, a não ser o Senhor Jesus!

Bento XVI nos diz, desta vez sem dizer: Não tenham medo de admitir fraqueza, cansaço. No palco da vida sejam fiéis a Deus e às vossas convicções, não traiam Deus nem vossa consciência! E saibam que não há nenhum problema em sentir-se fraco, afinal, só Deus é fortaleza!

Obrigado Forte Papa Bento XVI! Obrigado por seus belíssimos escritos, grande santo e intelectual! Obrigado por mostrar ao mundo que o Papa é humano e que só Deus é Divino!

Sua bênção Bento XVI! Reze por nós!

Colaboração: Padre Manoel Júnior, Arquidiocese de Sorocaba/SP

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Transposição do Rio São Francisco: 1 ponto de vista

Assunto pra render é essa tal transposição!
Antes era: "tem ou não?"; "a favor ou contra?"; "sai do papel?"... e por ai vai!
Sou graduada em Geografia, portanto muito ouvi falar sobre o assunto, seja ele em palestras, aulas, conversas informais, de gente contra e de gente a favor. Com base em tudo o que vi, li e ouvi, formei a minha: SOU CONTRA! Sou por vários aspectos, e como ultimamente isso tem sido muito comentado (graças a Rede Globo), não tem como não me pegar pensando em tudo isso, e a forma humilde que tenho é de expor isso por aqui mesmo, até como uma forma de desabafo.
Pra começo de conversa não sou partidária. Voto em quem me passa um pouco de confiança, e confesso que votei em Lula no segundo turno em seu primeiro mandato. Acho que ele fez sim muita coisa boa para o Nordeste, mas muito me admira uma pessoa que tem a origem na seca do agreste pernambucano aprovar tal obra.

A trapalhada dessa transposição começa do começo mesmo! Ao se conceber um projeto (e aprovar!) sem nem mesmo ir a campo ver as condições reais do terreno. Essa é a desculpa... uma análise de mapa geológico já ajudava bastante!
Do ponto de vista ambiental, na questão de vazão do rio, até acredito que uma obra dessa não vá realmente causar muito impacto, mas não sou especialista, portanto não tenho nem como argumentar isso. Mas do ponto de vista ecológico fica meio evidente. Imagine uma floresta onde vivem várias espécies de animais e plantas, e de repente essa floresta ser cortada ao meio, sem deixar uma ligação entre os lados, a não ser através de pontes e rodovias. Sim, a caatinga é um bioma, único no mundo, e de uma vitalidade incrível! Aguenta longos períodos de estiagem e curtos períodos de chuva intensa, porque dizer que não chove no sertão é bobagem... chove sim, mas durante pouco tempo, o suficiente para encher rios e açudes  e manter a vegetação viva. A solução "mágica" para a seca é bem simples e viável: armazenar essa água! Como? Existem várias soluções em departamentos de engenharia por ai afora, com intervenções baratas, simples e eficazes.
Há quase dois anos visitei as obras tanto do eixo norte como do eixo leste e fiquei impressionada com a grandiosidade do projeto. Naquele tempo já existiam lotes abandonados e rachaduras em vários pontos. Ao questionar como seria a distribuição da água não tive respostas precisas, pesquisei e isso ainda é uma dúvida. O que sei é que os canais vão transportar água para açudes já existentes e que serão construídos e dai essa água será levada para o povo, como água encanada, paga, claro! Dai perguntei como seria feita a proteção dos canais para que a água não fosse desviada, como acontecem com várias adutoras espalhadas no sertão, e a resposta foi que seria feita através de cerca. Sério? Centenas de quilômetros de canais abertos sendo protegidos por cerca... viva o desvio!
Mas o que me dói mesmo dessa transposição é saber que mesmo pronta, com todos os gastos além do previsto, ela não será para todos. Quando fui bolsista na Fundação Joaquim Nabuco passei uma semana no sertão, entrevistando pequenos, médios e grandes proprietários de terra. Numa mesma região existiam fazendas com agricultura irrigada, pasto para mais de mil cabeças de gado (gordo) e pessoas que mal tinham água pra beber. O pouco da água que existia era para quem podia pagar por ela! Vi pessoas cavando buracos em pleno leito de um rio seco para conseguir água para beber e cozinhar, e essa mesma água escassa era oferecida para nós que chegávamos sem pedir licença nas casas deles, enquanto que nas grandes propriedades ficávamos no sol, preenchendo o questionário, isso quando nos recebiam. Não, não é justo com essas pessoas humildes que isso continue a acontecer. E saber que essa transposição só irá beneficiar os que poderão pagar pela água me deixa um tanto quanto indignada.

Mas a transposição ta ai... dinheiro sendo gasto a torto e a direito, gente protestando, gente achando bom, gente culpando, gente culpada, muito se discute e pouco se faz, resolve?
A boa notícia no meio de tudo isso é que voltou a chover no sertão, e que venha mais chuva pra esse povo tão sacrificado, já que é e sempre será a única forma de se ter água a quem realmente merece!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Lispector


“Acredito que as pessoas aprendem com os próprios erros e com o tempo. Acredito também que quem traiu uma vez e foi perdoado vai trair de novo. Acredito que aquelas pessoas que vivem falando mal dos outros vão falar mal de você com esses outros. Acredito que as pessoas só mudam por vontade própria e nunca pelo pedido de outra pessoa. Acredito que tudo que eu acredito hoje vai mudar com o tempo. E que, no futuro, talvez, eu acredite em menos coisas. Ou em nada mais.”
(Clarice Lispector)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mar de Mariana



Um amigo me enviou essa música hoje que eu não conhecia, e simplesmente amei! O mar é para mim algo tão essencial como comer, dormir... ele tem o poder de me acalmar em questão de segundos, basta olhar para o horizonte, sentir a brisa, pisar na areia, ouvir o barulho das ondas! O mar é meu sim!

"Uma menina me disse que aqui
Há um mistério que nunca se viu
Brisa do mar em pleno matão
Lua cheia na escuridão
Um pescador de sereias
Veio de barco com a rede nas mãos
Dizendo que ia pegar
A mais bonita do mar
Mas não há delas aqui no matão
Só se for no meu ribeirão
Diz a história
Que existe um mar nas Gerais
Dele nasceu Mariana tempos atrás
No rosto a pele macia como seda
Brinca com o azul do olhar
Feito areia riscando o oceano na praia
O brilho do seu cabelo dourado
Faz nos ombros desmaiar
Toda beleza como o sol
Deitando nas águas
É o mar de Mariana
Mariana também tem mar
Mariana, Mariana, Mariana
Mariana também tem mar
Mariana, Mariana, Mariana
É o mar de Mariana"
(Cláudio Fraga)

E como diz Nando Reis: "Quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor"

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Prato difícil de preparar


Porque minha família é o melhor prato que existe!

"Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema... Não é pra qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes dá até vontade de desistir... Mas a vida sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela,  a mais apaixonada. A outra, a mais consistente... Já estão todos ai? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza. Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar, tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e pronto: é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa, é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga desandou a receita de toda a família só porque meteu a colher na hora errada. O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini; Família à Belle Manière; Família ao Molho Pardo (em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria). Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito. Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só pra manter a linha. Seja como for, família é prato para ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.

Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco feito eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro.

Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete."

(Trechos do livro "Arroz de Palma" de Francisco Azevedo)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Via Láctea


Quando tudo está perdido sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido sempre existe uma luz
Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima
Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza das coisas com humor
Mas não me diga isso
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia, não é?
Eu nem sei porque me sinto assim
Vem de repente um anjo triste perto de mim
E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção, mas obrigado por pensar em mim
Quando tudo está perdido sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido eu não quero mais ser quem eu sou
Mas não me diga isso
Não me dê atenção, mas obrigado por pensar em mim

#legiaourbana

terça-feira, 17 de abril de 2012

Para refletir...

"Mulher não se cansa. A gente tem essa coisa de ir até o fim, esgotar todas as possibilidades, pagar pra ver. A gente paga mesmo. Paga caro, com juros e até parcelado. A gente completa o percurso e, as vezes, fica até andando em círculos... mas não tem preço sair de cabeça erguida, sem culpa, sem 'e se'!"