terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O melhor da terapia

Texto enviado por minha mãe, que é psicóloga, dedico a todos que, assim como eu, fazem terapia!

"O melhor da terapia é ficar observando meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete loucos todos os dias, meses, anos, se não era louco, ficou.

Durante quarenta anos passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos, e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha pra ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses. Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto apulo coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos: na última quarta-feira estávamos:

1. Eu,
2. Um crioulinho muito bem vestido,
3. Um senhor de uns 50 ano, e 
4. Uma velha gorda.

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do princípio que todos eram loucos, como eu. Senão não estariam ali tão cabisbaixos e ensimesmados.

2. O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba". Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava umas olhadas furtivas para dentro da mala assassina.

3. E o senhor de terno preto, gravatas, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques, já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total. Medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.

4. Mas, a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de 30 anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não. Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de que mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela se a conhecesse.

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com meu psicanalista. Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera. Ele ri... ri muito, o meu psicanalista, e diz:

- O Ditinho é nosso office-boy;
- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios la no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
- A gordinha é Dona Dirce, minha mãe.
- E você, não vai ter alta tão cedo!"

(Luis Fernando Veríssimo)

8 comentários:

Aline V. Melo disse...

todo mundo tem um pouco de loucura em si mesmo!

hehe

gostei do texto!!!

Beijão Mari

Maha Shakti disse...

Gostei muito disto,porque pude perceber o quanto sou louca também!

Elzinha disse...

Muito louco este texto. Adorei a loucura. Pensando bem, quantos de nós já não fizeram este "exercício" numa sala de espera??..eheheh
Bom passar por aqui.
Beijos

Estéphanie Mognatto disse...

De genio e louco todos temos um pouco. =]

Adorei seu cantinho^^.

To te seguindo a partir de agora.

bjoka

ha se quiser da uma olhadinha no meu cantinho . ^^"

Luci disse...

Hahaha,muito boa a cronica.



beijo,adorei aqui.

Luciana disse...

Já dizia Gandhi: "Seja a mudança que deseja ver no mundo".

Tudo começa a partir de nossas escolhas e de nossa vontade de mudar e melhorar o mundo! Se cada um fizer sua parte, nosso mundo será um lugar maravilhoso para viver; basta reencontrarmos a harmonia e respeitar o próximo - seja ele de que espécie for - fazendo o possível para deixarmos uma marca positiva neste planeta.

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Abraços e boa semana!

Danny disse...

Humm interessante :)
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Beijinho e continuação de bom trabalho *

franklin-marshalls disse...

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